18 de janeiro de 2018

[Série] MINDHUNTER


No fim dos anos 1970, dois agentes do FBI expandem a ciência criminal investigando a psicologia por trás de assassinatos e se aproximando, de forma alarmante, de monstros demasiadamente reais. Essa é a premissa da série Mindhunter, criada por Joe Penhalle dirigida por David Fincher. A sinopse em português dizia que a série retratava os policiais que cunharam o termo serial killer. Seja como for, este é sempre um texto complicado. Quando li achei que poderia ser interessante, mas não me animei. Sugeri para minha mãe, que andava querendo uma série nova e é telespectadora assídua de Criminal MindsCSI e afins. Mas então eu fui ver para ter certeza de que era bom, antes de colocar para ela assistir, porque, sim, minha mãe não mexe na Nétifliquis sozinha.

Enredos policiais são uma obsessão antiga tanto no cinema, quanto na televisão. No cinema o gênero foi tecnicamente inaugurado pelo curta-metragem português Os Crimes de Diogo Alves (1911, João Tavares). Depois vieram obras primas como M, O Vampiro de Dusseldorf (1931, dirigido pelo ícone Fritz Lang), o fabuloso Psicose (1960, o marco definido por Alfred Hitchcock) e o clássicoO Silêncio dos Inocentes (1991, criado por Jonathan Demme). Já a TV produziu a franquia mais longeva do ramo, Law & Order, além dos atuais nomes baseados em histórias reais que têm ganhado destaque e premiações, como o excelente O Povo Contra O.J. Simpson (está na lista para resenhar), que ganhou o Emmy e, claro, os narcotraficantes da vida.

Muitas dessas histórias acabaram tornando estes criminosos glamorosos, o que os levou a conquistar uma legião de fãs e seguidores que deram continuidade aos seus “legados”, em diversos sentidos. A capacidade do contador de criar um enredo cativante faz essas coisas. Basta pensar em Dexter. Mais tupiniquimente falando, temos o exemplo da novela Celebridade, que criou os vilões mais engraçados da TV e, Belíssima, cujo próprio autor ficou sem entender como as pessoas podiam simpatizar e torcer pelo vilão que não era nada além de alguém absolutamente ruim.



A tentativa de compreender a mente de uma pessoa perturbada e explicar seus atos está presente em todos nós. E está presente também em Mindhunter. Em dado momento, quando Bill, um dos agentes, tenta convencer o chefe do bureau da importância de seu trabalho, ele lança a fatídica pergunta: “Como antecipamos os loucos quando não sabemos como os loucos pensam?”. Só que esta pergunta, esta necessidade de compreensão, nas mãos de Fincher (o cara que entregou a adaptação americana de House of Cards para o mundo), percorre um caminho muito mais criativo e instigante. Seguindo as linhas de  Clube da LutaSevenZodíacoGarota Exemplaretc., Fincher cria um suspense que cativa e envolve pelo herói ao invés de pelo anti-herói. Você vai torcer e tomar partido pelos personagens, mas nunca pelo vilão. Reinventando os chamados procedural dramas (com um caso por semana), Fincher firma a trama na força das atuações e dos diálogos brilhantes, ambíguos, despretensiosamente profundos, enquanto diversas narrativas paralelas vão sendo desenvolvidas, organicamente, todas com o mesmo nível de importância.

Os dois primeiros episódios cuidam de explicar quem é Holden Ford (Jonathan Groff), o jovem agente especializado em negociação de reféns que, depois de uma ação em um sequestro que acaba com o suicídio do sequestrador, passa a tentar entender o que se passa na mente do criminoso. E ele está tão disposto a fazer o que for necessário para atingir sua meta, que pouco se importa em perder o respeito de seus colegas de trabalho ou a si mesmo no meio do caminho. Ao ser designado como assistente do veterano Bill Tench (Holt McCallany), Holden vê a oportunidade de continuar seus estudos.

Esta era uma época em que tudo precisava de um motivo concreto como explicação. Na maioria das vezes, uma decepção amorosa, algum sério problema de dinheiro ou qualquer razão mais palpável. Se um assassinato fosse cometido, sem ser seguido de roubo, bastava procurar pelo amante ou marido traído que o culpado seria encontrado; porque ninguém matava apenas por matar.

A década de 1970 trouxe o movimento hippie, o uso de novos entorpecentes, o amor livre, mas também trouxe guerras, violação de direitos civis e casos de assassinatos absurdos e aparentemente sem explicação clara, com mais intensidade. E eram estas ações não claras e cautelosas que faziam com que os assassinos seguissem livres e impunes. Se antes a polícia investigava os casos sob a tríade motivo/oportunidade/meio, tornou-se, então, imperativo mudar os parâmetros de avaliação dos grandes crimes que assolavam os EUA, como o notório caso de Charles Manson. E é neste conflito que a série lança o contraste entre o sentimento do público e as reais motivações do protagonista. Holden está infinitamente mais fascinado com a mente dos assassinos do que interessado nas vítimas.

Holden então começa a conduzir um longo experimento, repleto de pesquisas, que envolvem, inclusive, visitas a assassinos condenados nos presídios para entrevistas; entre eles está, Edmund ‘Ed’ Kemper (Cameron Britton), que trucidou os avós aos 14 anos, convenceu os psiquiatras de que estava recuperado e recebeu atestado de sanidade bem no dia em que levava no carro a cabeça de uma das seis adolescentes que havia matado, esquartejado e estuprado (necessariamente nessa ordem), até que, por fim, assassinou a própria mãe, arrancou-lhe a cabeça, que usou para praticar sexo oral e, triturou a faringe dela num processador de legumes. Mas calma, que nada disso aparece na história. Em tempo e para desanuviar o que for possível, vale destacar a excelente atuação milimetricamente estudada (aparentemente) de Britton, que ocupa a tela (não pelo seu tamanho e é bem mais fofo na vida real) todas as vezes que aparece em cena, com sua voz doce e seu jeito educado de contar seus atos.


Baseada no livro Mindhunter - O primeiro caçador de serial killers americano (Intrínseca), que conta a história real do agente John Douglas, responsável por criar o perfil dos serial killers na época em que a expressão nem existia e ninguém estava disposto a fazer o que ele fez: justamente ficar cara a cara com dezenas de assassinos famosos, conduzindo entrevistas que o ajudariam a traçar um padrão para entender quem são essas pessoas, Mindhunter é uma série “em camadas”, que vai aprofundando a trama na medida em que os próprios investigadores se aprofundam na mente destes criminosos; assim como acontece em toda e qualquer pesquisa que se preze.

Vemos nesta série o nascimento de uma ideia; aquela que deixa alguém inquieto, que a pessoa quer defender e provar a todo custo, que ninguém bota fé, mas que quando finalmente nasce, todo o mundo descobre que era exatamente do que precisava. Só que toda boa tese precisa de um bom orientador. Então entra em cena a Dra. Wendy Carr (Anna Torv), exatamente a psicóloga mais experiente que oferece a visão acadêmica necessária para a construção da tese, dos perfis. Viu? Olhe com mais amor para sua monografia, TCC etc.

Ainda como contraponto feminino, entra Debbie Mitford (Hannah Gross), a namorada de Holden, outra acadêmica, ou mais precisamente, uma universitária. Ambas as mulheres têm em comum a resistência ao FBI, que veem como uma instituição conservadora, a ponto de sentirem vergonha de estarem envolvidas com ela de qualquer forma. As duas são representantes da mulher moderna da década de 1970 e servirão como escalada para o desenvolvimento do próprio Holden; mas enquanto Wendy se mantém rígida e elegantérrima em seus propósitos, Debbie é a estudante, maconheira, que também servirá de parâmetro para o que significa uma sexualidade normal; assim como Bill, que é afetado por tudo o que acontece e serve de contraponto para a “anormalidade” de Holden, que nunca é afetado por nada.


Praticamente uma metalinguagem, o método transforma a série em um experimento de si mesma, à medida que teoria e prática se alternam ao longo dos dez episódios. Assim não há necessidade de descobrir um mistério ou apontar um culpado; isto já está posto. O problema a ser resolvido é o porquê, o famoso lado psicológico dos personagens. E tudo isso se reflete no ritmo da trama, que é mais lento. Você não verá grandes cenas de ação e não verá também nenhum dos crimes hediondos sendo cometidos, a não ser pelos milésimos de segundo da abertura da série. E ao contrário do que possa parecer a primeira vista, isto é uma inovação e uma vantagem para a série, que demarca sua força justamente pelo que não é visto, mas, de novo, pelo que é dito, pela atuação contida que cresce de acordo com a situação. É de uma agonia saber o que estes assassinos fizeram e mesmo agora, quando tenho que atualizá-la em minha mente para te contar da série, volto a sentir o mesmo mal estar. Mas não se assuste. Mesmo não sendo indicada para ser maratonada,Mindhunter é uma série que você merece ver! Fotografada com maestria, com a caracterização quase morta de todos os subúrbios, os letreiros gigantescos que apresentam as cidades, os close-ups nas entrevistas, a produção tem o apuro técnico dos grandes thrillers, o que também aparece no som. A trilha sonora é sensacional e funciona, de novo, como contraponto para a sutil criação dos efeitos sonoros que povoam cada um dos ambientes da série. Cada lugar tem seu próprio som; repare!

Uma curiosidade é que Charlize Theron, que viveu a serial killer Aileen Wuornos em Monster: Desejo Assassino, também assina a produção executiva.
 
O único senão da série é seu ápice. Embora este momento seja construído lentamente e até de forma previsível, fica a desejar quando acontece, no último episódio. Entretanto é um desenrolar que se mantém coerente com a toda a história. E ainda deixa a porta escancarada para a próxima temporada – que já foi confirmada – com uma história que eu matei na primeira cena, mas que não vou te contar qual é...
Como subproduto de uma cultura, o crime se atualiza, inclusive hoje em dia. A facilidade e o desapego para o assassinato estão muito maior, mas são tantos noticiários e programas sensacionalistas que talvez fique impossível para você responder à pergunta: Hoje o que é que te espanta? E acho que este é outro mérito da série, de voltar ao primeiro pensamento, à inquietação do pesquisador que faz você se assustar como realmente deveria, desde o episódio um. Você pode até se questionar por que raios você escolheria se assustar, sentir medo, se horrorizar, mas para além da adrenalina, a vida só tem sentido dentro de uma perspectiva, de um contexto que nos torne mais humanos. Espantar-se é preciso. A série abre esta possibilidade. Cabe a você escolher por onde quer andar...

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