6 de junho de 2018

[ Série] Wild Wild Country



Quando um polêmico líder de seita constrói uma cidade utópica no deserto do Oregon, o conflito com os moradores vira um escândalo nacional. Essa é a sinopse de Wild Wild Country, que chegou ao catálogo da Netflix de maneira bem discreta. Se esse título apareceu na sua tela, assista. Se não apareceu, procure e assista. Por quê? Já te conto.
Rajneesh. É muito provável que você nunca tenha ouvido este nome e nem se empolgue com o fato dele ser de um guru indiano. Mas se eu te perguntar se você já leu essa frase (ou variações dela), tenho quase certeza de que sim: “Opte por aquilo que faz o seu coração vibrar, apesar de todas as consequências”. Pois esta frase pertence a um cara chamado Osho, que talvez você já tenha ouvido falar, nem que seja pela frase. Veja só: Rajneesh e Osho são exatamente a mesma pessoa. E o que há de especial nisso? Já continuo te contando.
Osho nasceu Chandra Mohan Jain. Na década de 50 atuou como professor de filosofia na Universidade de Jabalpur, na Índia. As aulas do homem barbudo de gorro e óculos escuros estavam sempre lotadas e eram as únicas em que homens e mulheres podiam se sentar juntos e debater despreocupadamente. Pregando a busca da liberdade através da meditação, ele conquistou uma geração de pessoas que buscava a espiritualidade sem ter de se comprometer com antigas crenças, muito embora ele mesmo tenha se apropriado e feito releitura de todas essas crenças e técnicas que criticava (a frase que usei num dos meus trabalhos acadêmicos foi O amor sempre procura se realizar, assim como o rio sempre corre para o mar”. Embora seja de Roberto Shinyashiki, o cara que me apresentou ao indiano em questão, ela nada mais é do que uma releitura de um texto de Osho). A quantidade de pessoas que o buscavam era tão grande que ele passou a se dedicar exclusivamente à vocação de guru e a organizar acampamentos de meditação na zona rural do país.

Nos anos 70, já com uma pequena multidão de seguidores e um movimento com feições de religião, Chandra mudou seu nome para Bhagwan Shree Rajneesh (ou “Rajneesh, o senhor abençoado”, em sânscrito), pontuando sua ligação divina. Seus discípulos então adotaram o uso de roupas vermelho-alaranjadas, um colar de 108 contas e um medalhão com a imagem do líder. Além disso, cada novo discípulo era rebatizado pelo mestre para caracterizar a adesão. No fim desta mesma década, já instalado num centro de meditação no parque Koregaon, em Puna, ele recebia cerca de 100 mil pessoas por ano, sendo a grande maioria, ocidentais conquistados pela ideia de renunciar às repressões impostas por religiões, educação, governos e outras tradições, sem ter de abrir mão do mundo material. Tal interesse fez o movimento buscar uma base fora da Índia e em 1981, Rajneesh e seus seguidores mais próximos se mudaram para um terreno 150 vezes maior do que o Parque do Ibirapuera, no deserto de Oregon, nos EUA, que recebeu o nome de Rajneeshpuram (existe um encanto em ficar repetindo o som desses nomes), dando um passo importante para a internacionalização do movimento. Mas ser um guru que prega o amor livre e tem 93 Rolls-Royces numa cidade com 40 habitantes que se mudaram para lá para curtir a aposentadoria, não poderia passar despercebido. E é aí que a coisa pega!
Algo que todos concordam sobre esta série-documentário é que quanto menos você souber dela, melhor; de modo que cesso o spoiler, inclusive de como Rajneesh virou Osho. Mas saiba que seus realizadores, os diretores e irmãos Chapman e Maclain Way e os produtores também irmãos, Jay e Mark Duplass (junto do brilhante trabalho da produtora brasileira Juliana Lembi), levaram quatro anos para construir e fundamentar as histórias que escolheram contar, com grande perícia, diga-se de passagem. Os capítulos de mais ou menos uma hora cada, assim como o olhar de Osho, permanecem grudados à retina tempos depois de terem finalizado. E sabe por quê? Já termino de te contar.
Porque esta não é uma série sobre Osho. É sobre uma daquelas histórias inverossímeis e alucinantes, que misturam paranoia, megalomania, Nike (sim, a marca de tênis), luta de poder, escalada da violência e de corrupção que encontra eco na sociedade de hoje, em políticos que representam essas mesmas pessoas, ainda que no discurso atual nada disso seja compreensível ou aceitável. Seguindo a tendência, a produção deixa a decisão de que lado tomar a cabo do expectador (e você vai pesquisar no Google; vai, sim), mas eu ainda não decidi. E eu pratiquei uns troços lá que esse homem ensinou. Essa é a parte que eu tenho facilidade de entender. Mas a cada novo episódio as coisas saem ainda mais do controle, que tudo o que resta ao seu cérebro é ser bugado, mesmo vendo as imagens na tela.
Segundo Rajneesh/Osho, o que ele buscava era que o ser humano elevasse sua consciência para que todo o mundo pudesse ver quem ele realmente era. A série mostra que, de um jeito ou de outro, ele atingiu este objetivo. E talvez tenha sido exatamente por isso que todos os envolvidos nesta história, não só o American way of life, tenham se sentido tão ameaçados...